Pensamentos

A forma mais eficaz de interferir no mundo

Uma amiga minha, há uns dias, colocou o seguinte post em seu Twitter:

“Noticiar é, hoje, a forma mais eficaz de interferir no mundo”. Manoel Carlos Chaparro, 1996. A atualidade confirma, 13 anos depois?

Eu disse a ela que ficava difícil responder com aqueles míseros 140 caracteres que o Twitter nos dá, e perguntei se podia ser por post no blog. Bem, aqui está o post.

Pesquisei sobre o autor da frase na internet, e descobri que é doutor em Ciências da Comunicação e professor de Jornalismo. Eu bem que quis ver o blog do dito cujo, mas o Google me alertou de que poderia haver algo de errado no site, e isso poderia prejudicar meu computador, então resolvi não arriscar. Mas achei algumas coisas interessantes, e até uma foto do ilustre senhor…

Mas esse post não é pra falar dele, e sim do que penso sobre a frase. Pra começar, quero que vocês notem bem três palavrinhas: Noticiar é, hoje, a forma mais eficaz de interferir no mundo. Quis destacar “mais eficaz” e “mundo” porque vai ser a partir delas que formarei minha opinião.

Pois muito bem. Noticiar. Informar. Segundo o dicionário Michaelis online:

no.ti.ci.ar
(notícia+ar2) vtd 1 Dar notícia de; anunciar, comunicar: Noticiou prazenteiramente a realização da festa. Noticiaram-me o falecimento do colega. vtd 2 Publicar, tornar conhecido: A imprensa noticiou o suicídio da estrela. vpr 3 Informar-se, inteirar-se: “Para se noticiar ao certo do inimigo” (Morais).

Creio que o jornalista Chaparro se refere a todas essas definições. Partindo disto, analisemos a máxima!

Vocês já viram que tipo de notícia sai por aí? E não, eu não estou me referindo a revistas/programas tipo Caras, Contigo, Ti-ti-ti, Minha Novela ou Fantástico não. Falo de Veja, Istoé, Jornal Nacional e afins. Desde o preço do leite, até o aborto da artista famosa. E vem cá, falando sério: o quanto importa saber se Ivete Sangalo perdeu o bebê (não agora, mas da outra vez)? O quanto importa saber se o Bahia ganhou ou perdeu do Avaí? O quanto importa saber se foi aquele filme ganhou o Oscar, e não outro? Bem, pra mim — e isso pode escandalizar alguns, mas, honestamente, não me importa — não faz diferença alguma saber de tais coisas. Ainda me lembro da tristeza que meu pai teve quando o Brasil perdeu a Copa de 98 (eu acho!). Meu Deus, pra quê?! Sinceramente, o Brasil ganhar ou perder numa Copa, saber se fulana tá namorando ou já casou, e descobrir qual filme ganhou o Oscar não muda meu salário, não resolve meus problemas pessoais, não me compra um carro novo… E podem até contestar, mas a gente sabe que esse tipo de notícia também é veiculada pelas revistas e pelo telejornal que citei antes.

Eu não assisto jornal, não leio jornal, não tenho assinatura de Veja, Istoé nem Superinteressante, e também não ouço rádio. Se quero saber o que está acontecendo no mundo, dou uma olhada (de vez em quando) no G1. Mas, no mais das vezes, acabo descobrindo as coisas pelas comunidades que frequento no Orkut, porque sempre que acontece algo, acabam comentando nelas… Podem me chamar de aluada, desinteressada, desinformada, “num tô nem aí”. Quando eu quero descobrir alguma coisa, pesquiso e, geralmente, acho. Se for relacionado à minha profissão, nem se preocupem, minha caixa de correio eletrônico é entupida todos os dias com as tais das “descobertas” e novidades médicas. Eu sei que esse mundo não vai melhorar. E em sites de notícia tenho a vantagem de escolher as notícias que quero ler, coisa que não dá pra fazer quando a gente tá assistindo a um telejornal (experimenta dar aquela zapeada rápida na hora da propaganda — você perde as notícias que não queria ver e a que queria). Eu até ouso dizer que nem assuntos “sérios”, relacionados à política por exemplo (como toda essa confusão de Sarney e seu senado) interessam. Simplesmente porque sei que, como sempre, vai tudo acabar em “pizza”, meu salário não vai aumentar e a corrupção vai continuar rolando solta, as usual.

Não nego a importância de reportagens investigativas, como muitas que a gente vê no próprio Fantástico, ou no Profissão: repórter, ou ainda no Repórter Record, entre outros. Elas nos ajudam a descobrir coisas sérias, que muitas vezes nem cogitávamos, e às vezes ajudam a polícia a descobrir pistas — isso quando não resolvem praticamente todo o caso! — sobre crimes até então sem solução. Também há aquelas reportagens ao redor do mundo, mostrando a geografia de terras desconhecidas pra muitos, alguns dos quais nunca sequer terão a chance de viajar, um dia, para tais lugares. Ajudam-nos a adquirir um pouco mais de cultura, a aprender coisas novas, e ninguém vai dizer que isso não é bom. Reportagens que nos mostram realidades que o Brasil não conhece, como as do Haiti, Afeganistão, Moçambique, Somália, entre tantos outros. Mesmo que a gente não tenha o poder de solucionar todas as desolações que vemos nesses locais, ainda assim podemos aprender que, em grande parte das vezes, nossos problemas não são tão grandes quanto os deles, e muita gente que assiste a tais reportagens acaba se sentindo movido a fazer algo pra ajudar, o que gera, em alguns casos, atitudes maravilhosas, e muitas vidas resgatadas. Isso pra não citar a importância de notícias que servem como alerta: não viajar pra tal lugar porque a estrada está ruim, fazer tal coisa pra evitar tal doença…

Tudo isso é, sim, muito bom e muito importante. Mas às vezes sinto que o Jornalismo brasileiro estão tão longe dessa realidade! Melhor é mostrar escândalos, desfiles de moda, resultados de jogos e fofoca de celebridades, porque, aí sim, dá audiência, dá dinheiro. E o Jornalismo, creio eu, não surgiu com essa intenção, mas sim com o objetivo de informar, de alertar, de avisar, de ajudar a população por dar a ela o conhecimento dos fatos — fatos esses que, pelos motivos que citei antes, acabam até, algumas vezes, sendo forjados, alterados, modificados.

Sei que há bons e maus jornalistas, como há bons e maus médicos, professores, pastores ou advogados. Bons e maus profissionais há em qualquer área. Mas, mesmo com os bons profissionais, mesmo com o bom Jornalismo, ainda assim não são todas as notícias que me afetam, e quando afetam a mim, nem sempre afetam outros. Por isso, acho um pouco precipitado dizer que noticiar é a forma mais eficaz de interferir no mundo. Talvez no seu mundo, em alguma situação; talvez só no meu, em outra. Talvez nos nossos, em determinado caso. Acho — se é que posso mexer na frase de um doutor — que a frase deveria ser: “Noticiar é uma das formas mais eficazes de interferir na vida das pessoas. Não sempre, nem na vida de todos ao mesmo tempo.”

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