Pensamentos

A mídia e (um dos) seus problemas

Eu não sou da área, motivo pelo qual alguns podem achar que não devo dar pitacos no assunto, mas me deu vontade de falar, e é isso que vou fazer.

Sei muito bem que “mídia” não quer dizer jornalistas, e não estou escrevendo esse post contra eles. Mídia é bem mais que isso, envolve muitos interesses de grandes empresários, envolve dinheiro. E o que tem de gente que faz literalmente “tudo por dinheiro” não está no gibi… Portanto, aqui não falo contra jornalistas, até porque conheço o trabalho sério de muitos, mas contra quem faz parte da mídia sensacionalista, aquele que ama colocar notícias “escandalosas” no ar para ter audiência, porque sabe que são essas as “novidades” que vão estar na boca de todos no dia seguinte.

Ontem o Fantástico veiculou uma matéria sobre o novo código de ética médica, que entra em vigor amanhã (13/04/2010). E eles iniciaram com a seguinte frase: “Quem nunca se sentiu ignorado por um médico, desatendido?” Ao ler a reportagem, percebe-se claramente a intenção de “fazer a caveira” dos médicos. É como se todos eles fossem arrogantes, não examinassem direito o paciente e tivessem letra feia.

Eu não vou ficar me defendendo aqui. Sou ciente do trabalho que eu e muitos médicos fazemos. Dedicação, atenção, letra bonita, tudo isso existe na classe médica. Mas não quero me demorar com essas coisas. Apenas gostaria de sugerir ao “show da vida” que fizesse uma matéria sobre os médicos. Quem são, como vivem, o tempo que levam pra se formar, em universidades muitas vezes sucateadas, a que tipo de pressão são submetidos, o nível de estresse que sofrem, as condições de trabalho — muitas vezes sem sequer um termômetro ou nebulizador, isso para não falar da falta de medicamentos e até de receituários, o que os obriga a escrever em pedaços de qualquer papel –, além dos baixos salários. E aí, que fique a cargo de cada um avaliar se os atendimentos insatisfatórios são culpa do médico ou dos que o empregam.

Só não se esqueçam de uma coisa: “humanização não se resume simplesmente a ficar pegando na mão do paciente com amor, olhando nos seus olhos ou apenas escutar seus problemas e, sobretudo, aos que não concordam com a visão distorcida de indivíduos que, sob o disfarce de “humanizados”, defendem que são os médicos os principais culpados pela falta de humanização da saúde, em demonstração gratuita e evidente de ódio em relação à tal classe profissional. Humanização se faz através de mudanças na estrutura do sistema se saúde atual, valorizando e capacitando o profissional da saúde e oferecendo atendimento, propedêutica e tratamento de qualidade ao paciente” (Sim à humanização da saúde). Uma parte disso quem faz é o médico. Mas ele não trabalha sozinho, e sim dentro de um sistema, que deveria prover (mas não faz isso, porque apesar de ser lindo no papel, na vida real é cheio de falhas) as outras coisas de que o médico necessita para fazer seu trabalho avançar e não o faz. Pensem nisso. Analisem bem os fatos antes de condenar gratuitamente toda uma classe profissional. Não façam como o Fantástico 😉

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