Pensamentos

Vivendo e aprendendo…

Hoje o posto em que atendo esteve cheio à tarde. Numa das consultas, o paciente apresentava micose, e, como era nas mãos, pensei que seria bem melhor medicação oral que tópica (no local): imagine você o dia todo com uma meleca nas mãos! A gente usa as mãos pra quase tudo, desde comer e beber, até escrever, segurar um livro pra ler, enfim. Pensei: “isso não vai dar certo, o creme não vai durar muito nas mãos desse menino”. Mas eu sabia que no posto a medicação oral estava em falta. E se eu mandasse a mãe comprar, muito provavelmente ela não iria fazê-lo, por preço, por dificuldade de locomoção, por preguiça (creiam, isso acontece sim)… Resolvi então passar a pomada mesmo, porque teria no posto, e pelo menos ia ajudar um pouco. Mas isso tudo que eu contei pra vocês aconteceu em menos de um minuto: desde a minha dúvida inicial até a tomada da decisão do que prescrever, tudo foi como segundos, pensamentos velozes na minha cabeça. Sim, porque a gente não pode demorar quando há mais uns 20 na sala de espera. E que reclamam se você passa mais de 10 minutos com apenas um paciente…

Depois foi a vez de uma mulher com dor de ouvido. Ela já havia ido no posto por esse mesmo motivo havia algumas semanas. Passei o medicamento, mas ela não comprou (provando o que falei acima, que quando a gente passa algo que não há no posto, porque o paciente realmente precisa, eles não compram). E hoje continuava com dor, com o agravante de ter eliminado secreção pelo ouvido.

E então? Alguém aí ainda quer ser médico? É frustrante, não? Por isso, alguém pode estar pensando que não estou contente com minha profissão. Não poderia estar mais longe da verdade. Amo o que faço, não consigo me imaginar fazendo outra coisa, e me sinto feliz de poder ajudar essas pessoas, porque casos como esses que citei não são tão frequentes assim. Há aqueles que conseguem a medicação no posto (maioria), que se tratam direitinho, do jeito que você ensina, e que voltam depois dizendo que estão bem. Alguns até agradecem, e os idosos gostam muito de mim, dizem que sou muito paciente! Tem como não ficar feliz com isso? Tem como não se sentir útil ao saber que você muitas vezes é o único médico que aquelas pessoas podem consultar — já que muitas não têm dinheiro sequer para descer ao hospital — e que não precisam pagar por isso? Não. Não tem.

Mas citei os fatos do começo do post para que vocês vejam um pouco como é difícil ser médico em nosso país. Seja pelas condições de trabalho, pela situação do paciente, pela falta de vontade dele em se ajudar (o médico não faz tudo sozinho), pela incompreensão de muitos… E para que conheçam um pouco da vida de pessoas que muitas vezes não têm R$ 1,00 no bolso pra comprar uma dipirona que seja. Não, a vida não é só blog, twitter, viagens, passeios e comidas gostosas, que a gente come quando tem vontade ali no shopping. Existe muita coisa que a gente não conhece. Mas graças a Deus e à minha profissão, eu tenho aprendido e conhecido muita coisa nova e diferente das que estava acostumada (quando faço visitas domiciliares a acamados, posso ver coisas que muitos de vocês nem imaginam). E é esse um dos motivos que me fazem ter orgulho de ser médica.

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2 opiniões sobre “Vivendo e aprendendo…

  1. Deve ser uma profissão realmente linda, acima de todos os percalços!
    E de muita entrega também, claro!
    Eu teria muito orgulho, assim como vc demonstra ter, Dani!
    Beijoss

  2. nemar em disse:

    Doutora, tenho um dodói aqui.
    Esses textos são muito claros, limpos, fáceis de ler…
    Para quem, como eu, escreve na ordem super-indireta (parece que imitando a letra do Hino Nacional. E que para se entender devemos colocá-lo frente ao espelho para ser entendido. (ambulância, bombeiros, etc, escritos nos parachoques para lermos pelo espelho retrovisor, lembra?), é chato.
    Acabo de incluir ” Pensamentos” na minha relação de favoritos.
    Meus textos são um dodói.
    Tem aí um vidrinho de um remedinho chamado elogio?
    Preciso se não vou morrer da dor do ciúmes.

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