Pensamentos

Garotas da capa

por Mônica Torres

Na fila do caixa no supermercado, a distração que resta, além de dizer não para todos os pedidos de guloseimas que os filhos fazem, é olhar as capas das revistas. Assim como balas e salgadinhos estão ao alcance das pequenas mãos gulosas e impacientes das crianças, as manchetes de todo tipo de publicação brigam pelo nosso olhar.

Tem desde revistinha com as receitas temáticas do mês, como bolos de milho para festas juninas, até as especializadas em decoração, ciência e economia. Claro que quem costuma roubar a atenção são as revistas de celebridades, com todas aquelas fofocas gritando “me compre, que eu conto a última da Danielle Winits” ou “olha quem vai ficar com quem na próxima novela”. Já vi muita mulher, e homem também, parando para ver fotos do mais recente casamento da Susana Vieira.

Mas nada que Susaninha e Dani fazem me surpreende mais do que as manchetes das revistas ditas femininas. De algumas, não se espera grandes profundidades. A proposta está lá, na forma como são produzidas as garotas de capa: sempre estrelas com roupas mínimas e cabelos esvoaçantes. Exatamente como a gente na vida real, né? Claro que não.

Até o delírio de beleza sexy e estonteante, eu não me surpreendo. Como eu disse, está na capa. O que me assusta sempre é a forma como as tais revistas prometem soluções para todos os seus problemas, especialmente nas áreas amor e sexo.

A primeira vez que me dei conta que as revistas femininas podiam ser mais que isso foi no começo de 2001, no lançamento da Trip para Mulheres, ou seja, TPM. Lá naquela longínqua edição estava uma lista de chamadas como “dicas para esquecer um grande amor” e “dez maneiras de fingir um orgasmo” retiradas de revistas femininas. Foi assustador.

Nove anos depois, estou na fila do mercado. Casei, virei mãe, sou profissional com uma certa experiência. Muita coisa mudou. Mas as revistas continuam as mesmas. Na espera para pagar pelas compras do mês é possível ler: “O que chama a atenção do gato na hora da transa? Seu rosto! Veja como tirar proveito da expressão facial para atingir o prazer supremo”. Até uma publicação que promete um olhar mais jovem promete responder às leitoras: “Sexo é mais legal com homens mais velhos ou mais novos?”.

Claro que toda uma cultura de submissão feminina não desapareceria assim. São décadas de pensamento machista imperando entre nós. Em uma pesquisa rápida, até o jovem Google mostra que as revistas femininas são assim – menos ousadas na escolha das palavras, claro – desde os anos 1950. Mas nós não aprendemos nada? Não queremos nada diferente? Não temos outras perguntas para fazer? Pra que precisamos de tantas “dicas”?

Buscamos nestas revistas a educação sexual que não tivemos, a autoestima que nos falta, o amor ideal que sonhamos. E as supostas respostas ficam lá, no display do supermercado, nos tentando como as guloseimas atiçam o desejo das crianças. Mas, meninas, acreditem, estas dicas não vão nos ajudar a ir em frente. Do contrário não estariam lá paradas na fila há décadas. Afinal, até a mais “feminina” das revistas sabe que a fila anda.

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2 opiniões sobre “Garotas da capa

  1. Mto bom.

    Recomendo este texto sobre o mesmo assunto, pra descontrair e talvez refletir: http://gregoriando.wordpress.com/?s=revistas+femininas&submit=Pesquisa

  2. nemar em disse:

    Comentário lá no “Sobre ter opinião” (e a lei do menor esforço: 1 comentário para 3.)

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