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Quando a beleza se torna um problema de trabalho

Antes de mais nada, preciso dizer que não sou feminista. Não concordo com essa filosofia de vida, corrente de pensamento, ou o que quer que seja. Mas não apoio o sexismo, não concordo com “essa batata frita é de menino e aquela, de menina” , nem acho certo tratarmos homens e mulheres de forma diferente na questão profissional. Ainda por cima, me incomoda muito a preocupação exagerada com a aparência que existe hoje em dia, tanto que sempre comento isso aqui. Por isso tudo, resolvi reproduzir aqui uma entrevista feita pela jornalista Letícia Sorg, da revista Época, em que ela conversa com Deborah Rhode, uma advogada americana que defende a criação de uma lei para proteger as pessoas da discriminação pela aparência.

Leia e comente!

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A advogada americana Deborah Rhode, autora do livro The Beauty Bias (algo como, O preconceito da beleza), defende que é preciso criar uma lei que proteja as pessoas de serem discriminadas, no ambiente de trabalho, por causa de sua aparência. Ela revela que, nos Estados Unidos, ser mais bonito (ou mais alto, no caso dos homens) pode significar ganhar 16 mil dólares a mais por ano – sem que isso tenha qualquer relação com ter mais competência. E que a aparência física pesa muito mais para as mulheres do que para os homens. Deborah, que é professora de Direito na Universidade de Stanford, afirma que elas sofrem quando se cuidam menos do que a sociedade espera e também quando se cuidam mais do que a média. E como adivinhar quanto é pouco e quanto é muito? Haja jogo de cintura e paciência…

Deborah afirma que as mulheres têm menos escolha quanto à própria aparência do que imaginam. Usar ou não salto alto e maquiagem pode não ser uma questão de gosto pessoal: pode ser uma exigência social e uma espécie de código não-explícito ou explícito de conduta no trabalho.  De fato, há casos em que o salto é parte do uniforme. E quem já não viu recepcionistas padronizadas com a mesma cor de sombra nos olhos? Até que ponto os empregadores devem ter direito de exigir certos padrões de aparência e cuidados?

Entrevistei Deborah para entender melhor o que é esse “preconceito da beleza” e publico no Mulher 7×7 de que forma esse problema afeta especialmente as mulheres. Leia a entrevista publicada na edição impressa de ÉPOCA.

Como a senhora decidiu escrever sobre o “preconceito da beleza”?
Deborah Rhode –
Eu presidia uma comissão sobre mulher e trabalho da American Bar Association (o equivalente americano à OAB) e estava em um evento em Londres.  O encontro estava acontecendo em vários lugares da cidade e uma ameaça de bomba paralisou o metrô no dia aniversário da Rainha Mãe. O trânsito estava horrível e não havia nenhum meio de transporte público para ir de um lugar para outro. Então, notei que estava rodeada por mulheres muito bem-sucedidas, mas reduzidas a cacos por causa de seus sapatos. Elas não conseguiam andar nem uns poucos quarteirões e me dei conta da ironia da situação. Senti empatia por aquelas mulheres naquele dia em Londres. Eu tive sorte porque tinha um sapato confortável dentro da bolsa. A desigualdade nos sapatos é uma pequena desigualdade que mantém as mulheres para trás. Nesse caso, literalmente. Então, comecei a notar nos tabloides, na viagem de volta para casa, que nenhum anúncio de calçado mostrava algo remotamente confortável. Se os homens podem ser sexy sem a ajuda de um sapato, por que as mulheres não podem?

Então, tendo todo o tempo de um voo transatlântico, escrevi um artigo satírico para o New York Times. Nunca tinha tido tanto retorno! As pessoas me mandaram suas histórias com sapatos, com as dores no pé e nas costas. Descobri que 80% das mulheres têm problemas no pé ou nas costas, a maioria relacionada aos calçados que usam. As mulheres fazem isso a si próprias, é verdade. Mas há uma questão cultural por trás do problema. Todos os direitos pelos quais as associações de direito da mulher têm lutado nos últimos 25 anos não foram suficientes para tornar os gêneros mais iguais. Sob alguns pontos de vista, as coisas só têm piorado. Estudos feitos nos Estados Unidos mostram que mais mulheres estão insatisfeitas com sua aparência agora do que há alguns anos. E um número maior sente uma pressão social para se submeter a práticas estéticas nem sempre saudáveis. Este é um mundo que gasta 200 bilhões de dólares por ano em produtos de beleza, muitos classificados por dermatologistas como fraudes. Eu me interessei em entender, do ponto de vista cultural, o que está motivando o nosso excesso de preocupação com a aparência. Quais são os custos sociais que isso tem e o que podemos fazer a respeito em termos de legislação.

A senhora afirma que as mulheres são as principais vítimas do preconceito de aparência. Por quê?
Os homens sofrem também com o problema, especialmente os mais baixos ou acima do peso. Mas as mulheres são mais prejudicadas porque os padrões estéticos são mais limitados e o preço por não atingi-los é maior. Elas são punidas por não se preocupar o suficiente e também por se preocupar demais com a aparência. Quem exagera nos cuidados é tido como narcisista, fútil. Quem se importa de menos é tido como preguiçoso, não profissional. Em minha opinião, a sexualização da mulher é uma maneira de puni-la, de diminuí-la no ambiente de trabalho. Um dos muitos exemplos que dou no livro: certa vez, Hillary Clinton (secretária de Estado americana) foi criticada por ter um quadril muito grande. Também vimos comentários sobre a aparência de Elena Kagan, nomeada para a Suprema Corte dos Estados Unidos. Como se ser atraente fosse uma credencial para fazer parte da Corte Suprema. Nenhum indicado homem teve de falar a respeito disso em sua sabatina no Congresso.

Recentemente, uma ex-funcionária do Citibank decidiu processar o banco alegando que foi demitida por causa de sua aparência, sensual demais. As belas também sofrem?
Em algumas funções, geralmente as de alto escalão, antes ocupadas quase totalmente por homens, mulheres muito sexy ou atraentes não são consideradas inteligentes o suficiente. Elas também são julgadas por suas medidas, não por seus méritos.

A senhora já sentiu na pele o “preconceito da beleza”?
Eu estava organizando um encontro sobre igualdade de gênero e trabalho e  imagem dos palestrantes, a minha inclusive, ia ser projetada em um telão durante o evento. Minhas amigas, então, ficaram muito preocupadas em como eu ia aparecer e queriam contratar uma pessoa para me ajudar a comprar roupas, fazer maquiagem, mudar o cabelo. A ironia é que eu, como organizadora do evento, não tivesse uma única roupa que se ajustasse à ocasião. A situação toda foi um tanto ridícula, mas eu sabia que elas tinham uma boa intenção. Então, do meu bolso, paguei por um novo visual. Dou risada agora ao pensar que, ao assumir cargos administrativos, as pessoas me incentivavam a ir fazer compras. Diziam: “Você tem que se preocupar mais com isso!”. Eu me enquadrei, como muitas pessoas, a essas exigências do trabalho. Mas hoje estou numa posição muito confortável (como professor universitária) porque os alunos realmente não ligam para a minha aparência. Ainda tenho as roupas que uso em ocasiões especiais, mas não uso mais sapatos desconfortáveis.  Mas, depois de saber de todos os problemas nos pés e na coluna causados pelos sapatos, peguei todos os sapatos com saltos muito altos e doei para a caridade. Agora só uso sapatos com os quais eu realmente consiga andar.

Estava dando uma outra entrevista e a jornalista me disse: “Gosto de salto alto. Ele me faz me sentir sexy e bonita nas fetsas”. Eu disse: “Ótimo”. Desde que seja uma escolha pessoal, não algo imposto por seu patrão e necessário para a sua avaliação como profissional.

A senhora se submete a algum tratamento de beleza?
Faço luzes no cabelo. Mas pretendo resistir às tentações do botox e dar um bom exemplo. De qualquer maneira, o problema não são as escolhas pessoais, mas as pressões sociais. Qualquer que seja sua escolha, você pode fazer a sua parte para promover uma sociedade que não imponha punições baseadas na aparência.

Há saída para as mulheres, já que elas são punidas por não seguir ou por seguir os padrões de beleza?
Acho que temos que questionar o que considerar quais são as nossas preferências pessoais. Quem estamos tentando agradar com elas? Temos também que nos educar sobre as imensas quantidades de dinheiro que gastamos com cosméticos que não funcionam. Uma vez comprei um pote de creme que custava 55 dólares. Aquela foi a última vez que fiz isso. Temos que estar conscientes dos riscos das cirurgias plásticas, dos riscos do efeito sanfona no peso. As mulheres têm que entender que não se trata de um problema pessoal, delas com seus próprios corpos, mas social e político.

O movimento feminista ajuda as mulheres a lidar com a pressão pela aparência?
A história de que feministas teriam ateado fogo a sutiãs em frente a um concurso de beleza – na verdade, eles foram depositados junto com itens de maquiagem e outros acessórios numa lata de lixo – gerou a ideia de que as feministas eram feias e desajustadas. Hoje algumas feministas veem a aparência como parte da atitude de mulher, uma questão de escolha. Outras, porém, dizem que as escolhas são culturalmente restritas. Não há uma posição coerente a respeito do assunto. As feministas estão divididas entre usar ou não usar salto alto, Botox e silicone. Para mim, a preocupação com a aparência não é só uma questão de escolha pessoal. Temos de pensar nas limitações impostas pela sociedade e na maneira como as pessoas são punidas por não segui-las; no preço que pagam, financeira e psicologicamente, por não se preocupar com a aparência na medida que a sociedade espera. É importante fazer as pessoas perceber os aspectos perniciosos dessa preocupação e que é possível fazer algo para mudar. Seja uma lei, um boicote permanente, outras formas de políticas públicas. Não me iludo com o que podemos ou não mudar por meio dessas ações, mas podemos fazer muito mais do que fazemos agora.

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