Pensamentos

Arquivo para o mês “setembro, 2010”

Mulher, trabalho, filhos…

Muito se falou e ainda se fala sobre a mulher que não quer ter filhos. Alguns chegam a dizer que são egoístas, que só pensam em si mesmas e por aí vai. Então, imagina-se, o que se espera de uma mulher, segundo estes, é que tenha filhos. Mas ei, alto lá. Não é só isso que se espera. Querem também que os filhos sejam limpinhos e bem-educados. Essa é a regra: você, mulher, tem que parir, e seus rebentos precisam ser anjos de candura.

E quem diz estas coisas? Aquelas que dizem que as que não querem ter filhos são egoístas. E ainda dão a receita do bolo: o negócio é você se dedicar a eles, não trabalhar pro resto da vida, porque aí terá filhos excelentes! E elas, realmente, não trabalham. Algumas podem se dar ao luxo de fazer isso, pois deram o golpe do baú têm maridos ricos, e vivem que nem dondocas, cujas únicas atividades são fazer compras, falar e ler futilidades e cuidar dos pimpolhos. Outras não têm tanta condição assim, e agem dessa forma porque creem piamente que é o melhor.

Mas o que tenho visto é exatamente o contrário. Conheço algumas mulheres (não vou dizer quem são nem como as conheci, óbvio) que não trabalham, muitas inclusive porque creem que “assim é o melhor”, quando não chegam a soltar o ridículo “é a vontade de Deus”. Tais mulheres frequentam reuniões femininas, que supostamente as ajudariam a ser melhores esposas e mães. Porém, apesar de tudo isso, algumas delas têm filhos que são verdadeiras pestes, com o perdão do termo. Crianças para as quais escovar os dentes é atividade semanal, e não diária (podem deixar cair o queixo, eu também fiquei assim quando ouvi), que dormem mais tarde que eu e que assistem programas de tv no mínimo inapropriados para suas idades.

Enquanto isso, conheço outras tantas que trabalham fora (claro que algumas têm a bênção de ter pais ou sogros por perto, mas mesmo assim…), mas que também se dedicam ao esposo e aos filhos, cujas crianças, essas sim, são educadas, estudam direitinho e são limpinhas. Ah, e só assistem programas adequados pra elas, dormindo bem cedo. Não são perfeitas, claro, mas estão a anos-luz de distância daquelas, cujas mães acreditam estarem fazendo o que Deus quer.

Minha mãe sempre trabalhou fora, e faz isso até hoje. Não só pra ajudar no orçamento, mas porque se realiza no que faz. Eu creio que a mulher, quando decide ter filhos, tem que maneirar no trabalho. Principalmente nos primeiros anos de vida da criança. Isso, inclusive, foi minha mãe que me ensinou — e fez. Mas não precisa deixar de trabalhar eternamente. O trabalho nos faz sentir úteis, é uma verdadeira terapia (quando trabalho não me concentro nos meus problemas, mas nos dos outros, que eu tenho que resolver, e isso alivia a mente, além de nos ajudar a ser menos egoístas), nos dá o sustento e nos realiza. Será que só o homem pode se sentir realizado e a mulher não?

Eu não sou feminista, como sempre falo. Também sou contra essa ideia da super-mulher: tem que ser ótima profissional, excelente mãe, esposa inigualável, e, claro, manter-se sexy 24 horas por dia. Isso é impossível. Ponto. Mas se a mulher quer se realizar fazendo algo de que gosta e ainda ganhando por isso, e quer também ser mãe, quem somos nós para impedí-la ou criticá-la? Conheço várias, imperfeitas, sim, mas que estão se saindo muito bem nas duas tarefas, enquanto que aquelas que pensam estar fazendo o melhor, por ficarem em casa, estão é prejudicando os filhos. Não todas, mas muitas sim…

A própria Bíblia fala da mulher que trabalha (e por isso que acho ridículo quando se diz que Deus não quer isso): “Examina uma propriedade e adquire-a; planta uma vinha com as rendas do seu trabalho” (Provérbios 31:16). Aqui a Bíblia fala da “mulher virtuosa”. Ela compra uma propriedade, planta uma vinha com as rendas do seu trabalho! Eu não precisaria falar mais nada, mas cito novamente Provérbios 31: “Cinge os lombos de força e fortalece os braços. Ela percebe que o seu ganho é bom; a sua lâmpada não se apaga de noite…não come o pão da preguiça” (versos 17, 18 e 27). Então, parem de usar Deus e a Bíblia como desculpas para sua falta de vontade…

E quanto àquelas que não querem ter filhos: será que são tão egoístas como se pinta? Ou mais egoísta é a mãe que tem filhos, fica o tempo todo em casa, mas não se dedica de verdade às suas crianças, que muito em breve, se a situação não mudar, tornar-se-ão insuportáveis? De nada adianta não trabalhar, mas ficar em casa sem fazer nada, “comendo o pão da preguiça” e achando que educar é igual a deixar os filhos fazerem o que querem. Melhor não ter filhos do que tê-los e deixá-los por conta própria. Isso sim é que é errado.

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Quando a beleza se torna um problema de trabalho

Antes de mais nada, preciso dizer que não sou feminista. Não concordo com essa filosofia de vida, corrente de pensamento, ou o que quer que seja. Mas não apoio o sexismo, não concordo com “essa batata frita é de menino e aquela, de menina” , nem acho certo tratarmos homens e mulheres de forma diferente na questão profissional. Ainda por cima, me incomoda muito a preocupação exagerada com a aparência que existe hoje em dia, tanto que sempre comento isso aqui. Por isso tudo, resolvi reproduzir aqui uma entrevista feita pela jornalista Letícia Sorg, da revista Época, em que ela conversa com Deborah Rhode, uma advogada americana que defende a criação de uma lei para proteger as pessoas da discriminação pela aparência.

Leia e comente!

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A advogada americana Deborah Rhode, autora do livro The Beauty Bias (algo como, O preconceito da beleza), defende que é preciso criar uma lei que proteja as pessoas de serem discriminadas, no ambiente de trabalho, por causa de sua aparência. Ela revela que, nos Estados Unidos, ser mais bonito (ou mais alto, no caso dos homens) pode significar ganhar 16 mil dólares a mais por ano – sem que isso tenha qualquer relação com ter mais competência. E que a aparência física pesa muito mais para as mulheres do que para os homens. Deborah, que é professora de Direito na Universidade de Stanford, afirma que elas sofrem quando se cuidam menos do que a sociedade espera e também quando se cuidam mais do que a média. E como adivinhar quanto é pouco e quanto é muito? Haja jogo de cintura e paciência…

Deborah afirma que as mulheres têm menos escolha quanto à própria aparência do que imaginam. Usar ou não salto alto e maquiagem pode não ser uma questão de gosto pessoal: pode ser uma exigência social e uma espécie de código não-explícito ou explícito de conduta no trabalho.  De fato, há casos em que o salto é parte do uniforme. E quem já não viu recepcionistas padronizadas com a mesma cor de sombra nos olhos? Até que ponto os empregadores devem ter direito de exigir certos padrões de aparência e cuidados?

Entrevistei Deborah para entender melhor o que é esse “preconceito da beleza” e publico no Mulher 7×7 de que forma esse problema afeta especialmente as mulheres. Leia a entrevista publicada na edição impressa de ÉPOCA.

Como a senhora decidiu escrever sobre o “preconceito da beleza”?
Deborah Rhode –
Eu presidia uma comissão sobre mulher e trabalho da American Bar Association (o equivalente americano à OAB) e estava em um evento em Londres.  O encontro estava acontecendo em vários lugares da cidade e uma ameaça de bomba paralisou o metrô no dia aniversário da Rainha Mãe. O trânsito estava horrível e não havia nenhum meio de transporte público para ir de um lugar para outro. Então, notei que estava rodeada por mulheres muito bem-sucedidas, mas reduzidas a cacos por causa de seus sapatos. Elas não conseguiam andar nem uns poucos quarteirões e me dei conta da ironia da situação. Senti empatia por aquelas mulheres naquele dia em Londres. Eu tive sorte porque tinha um sapato confortável dentro da bolsa. A desigualdade nos sapatos é uma pequena desigualdade que mantém as mulheres para trás. Nesse caso, literalmente. Então, comecei a notar nos tabloides, na viagem de volta para casa, que nenhum anúncio de calçado mostrava algo remotamente confortável. Se os homens podem ser sexy sem a ajuda de um sapato, por que as mulheres não podem?

Então, tendo todo o tempo de um voo transatlântico, escrevi um artigo satírico para o New York Times. Nunca tinha tido tanto retorno! As pessoas me mandaram suas histórias com sapatos, com as dores no pé e nas costas. Descobri que 80% das mulheres têm problemas no pé ou nas costas, a maioria relacionada aos calçados que usam. As mulheres fazem isso a si próprias, é verdade. Mas há uma questão cultural por trás do problema. Todos os direitos pelos quais as associações de direito da mulher têm lutado nos últimos 25 anos não foram suficientes para tornar os gêneros mais iguais. Sob alguns pontos de vista, as coisas só têm piorado. Estudos feitos nos Estados Unidos mostram que mais mulheres estão insatisfeitas com sua aparência agora do que há alguns anos. E um número maior sente uma pressão social para se submeter a práticas estéticas nem sempre saudáveis. Este é um mundo que gasta 200 bilhões de dólares por ano em produtos de beleza, muitos classificados por dermatologistas como fraudes. Eu me interessei em entender, do ponto de vista cultural, o que está motivando o nosso excesso de preocupação com a aparência. Quais são os custos sociais que isso tem e o que podemos fazer a respeito em termos de legislação.

A senhora afirma que as mulheres são as principais vítimas do preconceito de aparência. Por quê?
Os homens sofrem também com o problema, especialmente os mais baixos ou acima do peso. Mas as mulheres são mais prejudicadas porque os padrões estéticos são mais limitados e o preço por não atingi-los é maior. Elas são punidas por não se preocupar o suficiente e também por se preocupar demais com a aparência. Quem exagera nos cuidados é tido como narcisista, fútil. Quem se importa de menos é tido como preguiçoso, não profissional. Em minha opinião, a sexualização da mulher é uma maneira de puni-la, de diminuí-la no ambiente de trabalho. Um dos muitos exemplos que dou no livro: certa vez, Hillary Clinton (secretária de Estado americana) foi criticada por ter um quadril muito grande. Também vimos comentários sobre a aparência de Elena Kagan, nomeada para a Suprema Corte dos Estados Unidos. Como se ser atraente fosse uma credencial para fazer parte da Corte Suprema. Nenhum indicado homem teve de falar a respeito disso em sua sabatina no Congresso.

Recentemente, uma ex-funcionária do Citibank decidiu processar o banco alegando que foi demitida por causa de sua aparência, sensual demais. As belas também sofrem?
Em algumas funções, geralmente as de alto escalão, antes ocupadas quase totalmente por homens, mulheres muito sexy ou atraentes não são consideradas inteligentes o suficiente. Elas também são julgadas por suas medidas, não por seus méritos.

A senhora já sentiu na pele o “preconceito da beleza”?
Eu estava organizando um encontro sobre igualdade de gênero e trabalho e  imagem dos palestrantes, a minha inclusive, ia ser projetada em um telão durante o evento. Minhas amigas, então, ficaram muito preocupadas em como eu ia aparecer e queriam contratar uma pessoa para me ajudar a comprar roupas, fazer maquiagem, mudar o cabelo. A ironia é que eu, como organizadora do evento, não tivesse uma única roupa que se ajustasse à ocasião. A situação toda foi um tanto ridícula, mas eu sabia que elas tinham uma boa intenção. Então, do meu bolso, paguei por um novo visual. Dou risada agora ao pensar que, ao assumir cargos administrativos, as pessoas me incentivavam a ir fazer compras. Diziam: “Você tem que se preocupar mais com isso!”. Eu me enquadrei, como muitas pessoas, a essas exigências do trabalho. Mas hoje estou numa posição muito confortável (como professor universitária) porque os alunos realmente não ligam para a minha aparência. Ainda tenho as roupas que uso em ocasiões especiais, mas não uso mais sapatos desconfortáveis.  Mas, depois de saber de todos os problemas nos pés e na coluna causados pelos sapatos, peguei todos os sapatos com saltos muito altos e doei para a caridade. Agora só uso sapatos com os quais eu realmente consiga andar.

Estava dando uma outra entrevista e a jornalista me disse: “Gosto de salto alto. Ele me faz me sentir sexy e bonita nas fetsas”. Eu disse: “Ótimo”. Desde que seja uma escolha pessoal, não algo imposto por seu patrão e necessário para a sua avaliação como profissional.

A senhora se submete a algum tratamento de beleza?
Faço luzes no cabelo. Mas pretendo resistir às tentações do botox e dar um bom exemplo. De qualquer maneira, o problema não são as escolhas pessoais, mas as pressões sociais. Qualquer que seja sua escolha, você pode fazer a sua parte para promover uma sociedade que não imponha punições baseadas na aparência.

Há saída para as mulheres, já que elas são punidas por não seguir ou por seguir os padrões de beleza?
Acho que temos que questionar o que considerar quais são as nossas preferências pessoais. Quem estamos tentando agradar com elas? Temos também que nos educar sobre as imensas quantidades de dinheiro que gastamos com cosméticos que não funcionam. Uma vez comprei um pote de creme que custava 55 dólares. Aquela foi a última vez que fiz isso. Temos que estar conscientes dos riscos das cirurgias plásticas, dos riscos do efeito sanfona no peso. As mulheres têm que entender que não se trata de um problema pessoal, delas com seus próprios corpos, mas social e político.

O movimento feminista ajuda as mulheres a lidar com a pressão pela aparência?
A história de que feministas teriam ateado fogo a sutiãs em frente a um concurso de beleza – na verdade, eles foram depositados junto com itens de maquiagem e outros acessórios numa lata de lixo – gerou a ideia de que as feministas eram feias e desajustadas. Hoje algumas feministas veem a aparência como parte da atitude de mulher, uma questão de escolha. Outras, porém, dizem que as escolhas são culturalmente restritas. Não há uma posição coerente a respeito do assunto. As feministas estão divididas entre usar ou não usar salto alto, Botox e silicone. Para mim, a preocupação com a aparência não é só uma questão de escolha pessoal. Temos de pensar nas limitações impostas pela sociedade e na maneira como as pessoas são punidas por não segui-las; no preço que pagam, financeira e psicologicamente, por não se preocupar com a aparência na medida que a sociedade espera. É importante fazer as pessoas perceber os aspectos perniciosos dessa preocupação e que é possível fazer algo para mudar. Seja uma lei, um boicote permanente, outras formas de políticas públicas. Não me iludo com o que podemos ou não mudar por meio dessas ações, mas podemos fazer muito mais do que fazemos agora.

“Não sou a Lady Gaga”

Nunca fui fã de Sandy. Nunca gostei de suas músicas, acho a voz dela enjoada e com certeza achei muito esquisito o marido dela ter passado a noite de núpcias atualizando o twitter. Também não achei muito legal o fato de ela ter falado para todo mundo que ia casar virgem e depois reclamar que estavam pegando muito no pé por causa disso. Se não quisesse que pegassem no pé, não devia ter falado tanto acerca de algo tão íntimo e que só diz respeito a ela.

Mas acontece que não concordo com o que dizem sobre ela ser sem graça e sem sal, não apenas porque casou virgem — que é algo que eu apoio, com o que concordo plenamente e ninguém deveria recriminá-la por isso — , mas também por causa do jeito dela. Cada um tem seu jeito, que deve ser respeitado. Se ela fosse tipo Britney Spears ou Lindsay Lohan, o pessoal iria criticar porque ela seria doida. Como ela é calma, “na dela”, criticam também. Fica difícil!

Há algum tempo, li uma entrevista dela, e queria ter escrito um post aqui no blog antes, mas só agora apareceu a oportunidade. Ao ler essa entrevista, pude conhecer mais sobre Sandy, e assumo que me compadeci da “perseguição” que sofre. Até acho que mudei um pouco os conceitos que tinha sobre ela.

Gostei bastante dessa parte da entrevista (meus comentários estão em laranja):

Aí vem a adolescência e outro peso recai sobre você: atitude. As pessoas querem que você tenha mais atitude.

Eu não fui rebelde mesmo, assumo, eu não fui uma adolescente rebelde. Daqui a três anos eu terei 30 e não fiquei rebelde ainda. Eu tinha a vida que… Não precisava reivindicar nada, minha convivência com meus pais era fácil, tranquila, eu tinha liberdade. E se por um lado eu era criticada por ser comportada demais, por outro fui exemplo para famílias. As mães vinham dizendo: “Nossa, você é um exemplo para minha filha.” [Nossa, ser criticada por ser “comportada demais” é o cúmulo para mim. Existem pessoas comportadas, que se dão bem com os pais, sim! Você não precisa ser uma rebelde na adolescência para vivê-la em sua plenitude! Não sei por que o povo se irrita com quem não é rebelde].

Mas isso não tem glamour.

Pois é, não tem glamour para as pessoas, isso é brega. [Verdade, o que é uma pena…]

Aliás você tem pais que não se separam, você não briga com seu irmão, tudo que parece muito desinteressante para a mídia, não é?

Para a mídia e para o público, já que a mídia publica aquilo que o público procura. Não é interessante mesmo, pois é, minha vida é chata. Não tenho vida de artista, tenho vida de gente normal. [Que interessante a mídia! Querem ver sangue, miséria, tragédias. Quando o artista não dá isso, é “sem graça”. E quando dá, é criticado da mesma forma. Vai entender!]

Bom, não sei se vocês vão concordar comigo, mas também não é para isso que estou escrevendo esse post. Continuo não-fã da Sandy, continuo não ouvindo suas músicas, mas passei a vê-la de outra forma. Eu não gostaria de ser criticada porque fui uma adolescente comportada, porque me dou bem com meus pais ou porque casei virgem. E o interessante é que acabei encontrando coisas em comum com alguém de quem nunca fui admiradora. Gostei…

(Leia a entrevista na íntegra aqui)

Feios

Há alguns dias, li sobre o livro “Feios” no blog Corporativismo Feminino. Achei muito interessante, bem a ver com um assunto de que gosto muito: obsessão com aparência.

Chegou há 4 dias, e já comecei a lê-lo. Posso dizer que parece bastante interessante, e pretendo escrever sobre ele, quando terminar a leitura. Aguardem.

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